Onde Estão os Psicólogos, Psiquiatras e Psicanalistas?

Ao encerrar o XIII Congresso Brasileiro de Psicoterapia de Grupo e o IX Encontro Luso-Brasileiro de Grupanálise e Psicoterapia de Grupo, realizado em Porto Alegre, pela Sociedade Brasileira de Psicoterapia de Grupo, nós, psiquiatras, fomos chamados a uma de nossas responsabilidades, a de levar o conhecimento teórico que possuímos a respeito da natureza humana e da dinâmica dos grupos humanos para o seio da sociedade. O tema do referido congresso foi a violência, o crime organizado, o fundamentalismo. Também foram visitados temas como corrupção, perversão e maldade.

Na palestra de encerramento, Outeiral expressou a necessidade de nós, conhecedores da alma humana, repartir esse conhecimento com os diversos segmentos da sociedade, no sentido de ajudar a coibir as mais diversas ações perversas.

Observo que alguns profissionais da área da psicologia e da psicanálise têm escrúpulo em colocar seu conhecimento ao alcance de todos. As razões são muitas e variadas, e se expressam em frases como: “o que as pessoas farão com este conhecimento?”, “as pessoas não estão interessadas em ouvir”, “as pessoas vão entender a nossa fala como lhes convier”, “elas deturparão a nossa fala para satisfazer seus desejos”, dentre muitas outras. Pois bem, parece que é chegada a hora de nos preocuparmos mais com o que não dizemos do que com o que dizemos.

A gota d’água, neste momento, sem dúvida, para muitos de nós, foi a notícia, recentemente veiculada pela imprensa escrita, falada e tele visível, da adolescente de quinze anos que permaneceu por mais de vinte dias, presa em uma cela masculina, compartilhada com mais de vinte homens. Só o estupro, por si só, representa uma humilhação, uma agressão física, uma desmoralização. Isso seria suficiente para despertar nossa indignação, nossa vergonha e nossa culpa pelos nossos longos anos de falta de diálogo com a sociedade. Mas o desrespeito ao ser humano não termina por aí. Os argumentos utilizados pelas autoridades responsáveis por esse ato insano, tais como, as frases que pudemos ler e ouvir ao longo dos últimos dias: “o problema é que ela não disse que era menor de idade”, “quando for apurado o responsável, ele será exonerado”. Isso quer dizer que mulheres adultas podem ser estupradas sem problemas? Exoneração resolve uma situação dramática como a que acabamos de assistir, inclusive o peso na consciência? Será que existe consciência moral em casos como esse?

Na mesma semana, tivemos o assassinato seguido de suicídio do sujeito que há um mês saiu da prisão, onde cumpria pena por ter feito sua noiva de refém, pouco mais de um mês atrás. A autoridade competente, ao ser questionada, disse que não havia nada de errado; a lei foi cumprida. Isso é uma simplificação do problema, sem a menor possibilidade de se repensar os absurdos que acontecem.

E para não deixar nenhuma dúvida sobre a má vontade dos funcionários que estão a serviço do povo, temos ainda a história do italiano que morreu atropelado na praia de Copacabana. De novo, a autoridade competente sai com uma resposta evasiva, salientando que a preocupação não está voltada para crimes cometidos com os estrangeiros, que a proteção deve estar à disposição de qualquer um, independentemente de sua nacionalidade. Claro que sim, mas o problema é que nem brasileiros, nem estrangeiros, nem ninguém, está protegido. Esta é uma resposta bonita e encobridora; encobre a falência do estado e das instituições.

Mas o que tem a psicologia e/ou a psicanálise a dizer sobre isso?

Tem a dizer que a maldade existe e está dentro de todos nós. Carregamos um agressor que sempre existiu e sempre existirá dentro dos homens. Diante da visão da maldade do outro, ficamos paralisados, mas não conseguimos ver a nossa. Convivemos com estas situações e por pensá-las como fatalidades, julgamos que, como tal, nada há a fazer. Esta é a nossa paralisia frente ao horror, à barbárie e às inúmeras manifestações da violência física, psíquica e moral.

A psicologia e a psicanálise, com certeza, não tem soluções imediatas ou cabais para estas situações. No entanto, pode oferecer  idéias interessantes para o começo de uma profunda reflexão sobre a falta de comprometimento com a tarefa e sua possível relação com impulsos destrutivos inconscientes.

Falar abertamente sobre a nossa condição humana, essa mistura de boas e más intenções, onde facilmente descuidamos do interesse do outro em nome do próprio bem estar, pode ser um bom começo. No caso da violência , assim como nos casos de suicídio, precisamos acabar com o tabu que envolve esta situação – não se pode falar no assunto. No entanto, quanto mais falarmos da violência, mais perto estaremos de enfrentar o problema e resolvê-lo.

Em relação ao suicídio, desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou, após divulgar os resultados de pesquisa realizada por Bertolote, que falar sobre suicídio diminui sua incidência, a imprensa foi autorizada a noticiar, respeitando alguns critérios, os casos de suicídio; as escolas e as famílias receberam orientações de como agir para evitar o comportamento suicida dos jovens, identificando os fatores que favorecem a conduta autodestrutiva e o que pode ajudar a criança e o adolescente a dar sentido e gosto à vida. Valendo vale para suicídio, também vale para homicídio, estupro, assédio moral, roubo, seqüestro, e tantas outras manifestações da maldade humana

Segundo Christopher Bollas, psicanalista norte-americano com formação na Sociedade Britânica de Psicanálise, a maldade humana não tem limites. Todos têm dentro de si um agressor em potencial. O homem é, em sua natureza, um animal predador. Somente através do processo civilizatório pode, ativamente, reprimir sua tendência anti-social.

Freud, em “O mal estar na civilização” (1929), diz que o homem só abre mão da realização dos seus desejos mediante mecanismos de compensação, mediante o recebimento de algo melhor do que ele desejaria. Assim, abre mão do seu instinto de caça, encontrando a carne no supermercado; abre mão do ataque às fêmeas, com a parceira dentro de casa; abre mão do desejo de se avançar no outro para se apoderar do que não lhe pertence, se tiver a oportunidade de ter também. Enquanto não tiver a possibilidade de ter uma casa que o proteja das intempéries causadas pela natureza, enquanto não tiver dinheiro para comprar comida e saciar a fome, enquanto não tiver dinheiro para comprar roupas para si  e para seus  filhos, enquanto não puder comprar livros e enquanto não tiver escola para freqüentar, as chances de adormecer o criminoso que tem dentro de si são remotas.

 Mas estas dificuldades não se limitam a restrições materiais. Mais importante do que isso são as privações afetivas. Winnicott em “Privação e Delinqüência” afirma que a criança ou o adolescente que não adquiriu confiança nas figuras parentais (pais ou substitutos), que tem um sentimento de prejuízo, uma crença de que o mundo e a humanidade estão em dívida para com ela, além de passar a ter uma visão hostil de mundo, considera ter o direito de fazer qualquer coisa para reaver o que perdeu, mesmo que seja uma agressão ao outro. E quando reage pondo fogo “numa FEBEM da vida”, isto significa que ainda tem esperança de receber o que não lhe foi dado.  Mas quem quer saber o que esta mensagem quer dizer? Quem tem condições de interpretá-la?

Para fazer um exercício, gostaria lembrar o filme Titanic. Quem não ficou horrorizado com a atitude de alguns, como se algumas pessoas tivessem mais direitos do que outras? Mas, em sociedade, também estamos num mesmo “barco”; muitas vezes sem nos preocupar com os que irão se “afogar” ou estão se “afogando”. Não estamos preocupados com a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Só há preocupação com o outro diante da possibilidade de sofrer na própria pele  as conseqüências do próprio egoísmo.

Este artigo é um convite à reflexão. Não tem a menor pretensão de esgotar o assunto; apenas espera iniciar um diálogo frutífero que favoreça o enfrentamento da paralisia generalizada que tem ocorrido diante das desumanidades.

Pois bem, estamos aqui!
 

Sônia Beltrão

Psiquiatra e Psicoterapeuta de Grupo
Especialista em Gestão de Pessoas
Telefone: 3235.2434

E-mail: soniabeltrao@sitesul.com.br

Site: www.clinicasensorial.com.br